Por Renée Pereira da Agência Estado
A construção civil promete ser um grande motor da economia brasileira nos próximos cinco anos. De olho nas obras da Copa do Mundo, no programa habitacional Minha Casa Minha Vida e num ambicioso plano de investimento das estatais (Eletrobrás e Petrobras), o setor já faz planos para iniciar um novo ciclo de crescimento, interrompido pela crise mundial no segundo semestre de 2008. O otimismo está baseado nos números bilionários dos projetos - mais de R$ 300 bilhões.
A confiança dos empresários começa a ser renovada com a volta do crédito, embora com taxas ainda salgadas. Entre o quarto trimestre de 2008 e o primeiro deste ano, as empresas foram sufocadas pela falta de dinheiro disponível para levantar lançamentos do passado. Outro ponto foi o cancelamento de projetos de expansão da indústria. Tudo isso contribuiu para uma queda de 9,8% da construção civil no primeiro trimestre.
Com a volta dos IPOs (oferta pública inicial) e do crédito no mercado internacional, o setor acredita em dias melhores a partir de agora. A aposta é que o programa habitacional e as obras de infraestrutura priorizadas pelo governo para amenizar os efeitos da crise tenham reflexos positivos a partir deste ano, já que 2010 é ano eleitoral.
No caso do programa habitacional Minha Casa Minha Vida, lançado em março e que prevê subsídio do governo federal, a expectativa é aprovar projetos de 600 mil unidades até julho do ano que vem, num total de R$ 45 bilhões, segundo projeção do presidente de Câmara Brasileira da Indústria da Construção (Cbic), Paulo Safady. Até o início do mês, a Caixa já havia recebido das incorporadoras 385 projetos imobiliários (65 mil unidades), mas apenas 40 deles já haviam sido aprovados.
Se o governo cumprir o compromisso de reduzir os prazos do processo, o programa poderá alavancar de forma significativa as atividades da construção civil. Muitas construtoras, que não estavam nesse mercado, já se interessaram pela demanda potencial. Afinal o déficit habitacional do País é de 7,2 milhões de unidades, disse o presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil do Estado de São Paulo (Sinduscon-SP), Sérgio Watanabe.
COPA DO MUNDO. A definição das 12 cidades que vão receber os jogos da Copa do Mundo também animou o setor. Embora ainda não haja uma estatística oficial sobre o volume de investimentos, os números que circulam apontam para cifras que vão de R$ 60 bilhões a R$ 100 bilhões.
Em paralelo, o governo precisará definir todas as obras de infraestrutura exigidas para receber o evento. Só em transporte serão necessários mais de R$ 30 bilhões (sem contar o trem-bala que custará US$ 14 bilhões), afirma o professor da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende.
Outras áreas, como aeroportos, energia elétrica e telecomunicações, terão de ter seus serviços reforçados para evitar um colapso durante o evento. Isso sem contar a ampliação da rede hoteleira.O presidente do Sindicato Nacional da Indústria da Construção Pesada (Sinicon), Luiz Fernando dos Santos Reis, destaca que para atender as exigências da Fifa, o governo deverá eleger obras prioritárias para acompanhar e acelerar o processo. Nem tudo vai sair do papel. Por isso é importante definir projetos essenciais.
De qualquer forma, a expectativa é que a Copa impulsione o Produto Interno Bruto (PIB) do País nos próximos anos, como ocorreu em países que já receberam o evento. Na Alemanha, cujos investimentos ficaram em torno de US$ 10 bilhões, o impacto no PIB foi da ordem de 0,5 ponto porcentual. No Brasil, a expectativa é que as obras promovam maior aquecimento da economia, já que as necessidades são bem mais latentes. Outro dado é que, para cada R$ 1 milhão de investimento na construção civil, cria-se 33 empregos diretos e 25, indiretos.
Os especialistas destacam que as estatais foram autorizadas pelo governo a ampliar seus investimentos, para combater os efeitos da crise. A Eletrobrás anunciou investimentos de R$ 30 bilhões para o período entre 2009 e 2012 e a Petrobras, R$ 174 bilhões para 2009- 2013.
No caso da holding de energia elétrica, os planos incluem a construção de, pelo menos, seis hidrelétricas e da usina nuclear de Angra 3. É preciso ponderar, porém, que as obras nesse setor normalmente sofrem inúmeros atrasos por questões ambientais e disputas judiciais. A Hidrelétrica de Belo Monte, por exemplo, está no plano de investimento da Eletrobrás, mas não consegue nem ter seu estudo de viabilidade concluído por causa de pressões de ambientalistas.
Já a metade dos recursos da Petrobrás vai para produção e exploração de petróleo. Na avaliação de especialistas, a construção civil deverá ganhar maior participação no PIB a partir do ano que vem - até 2008, a indústria da construção representava 5,1% das riquezas do País.
Fonte: Jornal do Comércio - RJ