Por Próxima Viagem
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Cachoeira congelada em Urubici
O inverno rigoroso de Urubici é reconhecido como o mais gelado do Brasil desde 1987, quando a Aeronáutica montou uma base de controle de voo no alto do Morro da Igreja, que fica dentro do município, e passou a monitorar a temperatura. Com 1828 metros de altitude, o morro é o ponto culminante do sul do Brasil e dá de frente para uma intrigante escultura natural, a Pedra Furada, cujo vão tem a forma perfeita de um relâmpago. Na madrugada de 29 de junho de 1996, os cadetes de plantão na entrada da base viram o termômetro alcançar 17,8 graus negativos, um frio digno das estepes siberianas. É o recorde brasileiro ate hoje.
Planalto da Neve
Com a ajuda da base militar, Urubici ganhou o título de município mais frio do país, mas na prática quem continua com essa fama é a vizinha e mais famosa São Joaquim. Sempre que a meteorologia prevê a queda de neve na Serra Catarinense é para São Joaquim que os turistas correm, muitos sem se dar ao trabalho de reservar hotel. Eles chegam de repente e vão para as ruas se encharcar de neve, como crianças. Às vezes os 900 leitos da cidade (600 em hotéis e 300 em casas de família cadastradas) são poucos para tantos forasteiros, e o jeito é deixá-los dormir no carro mesmo, se possível com uma garrafa de conhaque por perto.
O deslumbramento com a neve — e o improviso ao lidar com ela — é natural num país como o nosso, muito mais conhecido pelas praias e pelos verões tórridos. O Brasil tropical ainda se espanta com cada notícia de nevasca na Serra Catarinense, como se isso fosse um evento incomum, quando se trata exatamente do contrário. Nessa região, o normal é que a neve caia todo ano, por seis dias em média, como mostra o histórico das variações climáticas dos últimos cinquenta anos. Nesse período todo, só em 1982 não nevou nas terras altas de Santa Catarina— uma zebra tão grande quanto à derrota do Brasil para a Itália na Copa daquele mesmo ano. Que lugar tão frio é esse que o resto do país ainda desconhece?
Serra Catarinense
A Serra Catarinense é uma região verde e muito bonita, com altitudes entre 900 e 1800 metros, onde ventos quentes e úmidos formados no litoral costumam se chocar com massas de ar gelado vindas da Argentina no inverno. Quando o contraste é muito grande, o vapor d'água vira cristal de neve sem passar pela forma líquida – e cai em flocos suaves, tingindo tudo de branco. É um território bem semelhante ao dos campos de Cima da Serra, do Rio Grande do Sul, com muitos cânions, abismos e rios cristalinos correndo sobre leitos de pedras – os dois, aliás, formam uma mesmo unidade geográfica, conhecida como Planalto da Neve. No campeonato brasileiro de temperaturas negativas, porém, é clara a vantagem da porção montanhosa catarinense sobre a gaúcha.
Durante quatro décadas — do início dos anos 1940 ao 1970 o Planalto da Neve foi também uma das maiores fontes de abastecimento de madeira de lei do Brasil, a madeira rígida e adornada com graciosos desenhos geométricos da araucária. Até que um dia esse pinheiro típico do sul foi praticamente extinto (resta apenas 7% da floresta original) e as poucas produtivas fazendas de gado se tornaram a principal atividade econômica da região. As araucárias que sobraram hoje são protegidas por lei e destacam-se na paisagem como belos enfeites naturais. Só se admite retirar delas agora o pinhão que os locais gostam de comer misturado a carnes, farinha ou simplesmente tostado no fogo de chão.
A Serra Catarinense, que chegou a ter 700 serrarias no auge da derrubada dos pinheirais, passou assim da condição de rincão semi-selvagem direto para o marasmo, o que não ajudou em nada sua descoberta pela maioria dos brasileiros. Quem chega apressado a São Joaquim, querendo apenas ver neve, também pode ter uma impressão errada da região, pois esta é uma cidade sem maiores atrativos, que só fica fotogênica quando coberta de flocos brancos e gelados. O pedaço onde o Brasil é mais frio tem muitos outros segredos a dividir com os visitantes, mas para isso exige um pouco mais de tempo.
É uma pena voltar para casa sem provar as melhores receitas regionais de pinhão e truta, por exemplo. Ou sem fazer uma cavalgada ate a borda de um cânion onde não se chega de carro. Expedições a pé também são fundamentais para um contato mais direto com a fauna e a flora regionais – há xaxins de vários metros de altura que só se encontram por aqui.
Estrada do Rio do Rastro
É indispensável, ainda, percorrer de carro, calmamente, as estonteantes curvas das serra do rio do rastro e do Corvo Branco, parando nos belvederes para tirar fotos. Nem pode faltar paciência para subir mais de uma vez o Morro da Igreja, no caso de encontrar a Pedra Furada escondida pela neblina (o céu costuma ser mais limpo de manhã, mas é a tarde que o Sol ilumina em cheio a rocha recortada).
Difícil também é acreditar que estamos no Brasil quando encontramos placas de sinalização alertando para a presença de gelo na pista. Você não as verá em nenhum outro lugar do país. Nem placas informando que a temperatura mínima pode chegar a 12 gruas negativos, como ostenta, orgulhosamente, o Hotel-Fazenda do Barreiro, em Lages, a maior cidade da Serra Catarinense. Mais surpreendente ainda é topar com a indicação de maior atrativo da minúscula Urupema:” Cachoeira que congela”. Sim, a cachoeira do Morro das Torres, que despenca de 1710 metros de altura, costuma congelar nos invernos mais severos – no de 2000, formou uma crosta de gelo no dia 15 de julho que só foi começa