Retrato de Anita do acervo que pertenceu ao Wolfgang Ludwig Rau Frida Kahlo e Diego Rivera. Oswald de Andrade e Pagu. Lampião e Maria Bonita. Giuseppe Garibaldi e Anita. Quatro casais unidos pela paixão e que fizeram história dentro e fora do país. Conheça um pouco da trajetória de cada um deles e os cenários onde se conheceram e deixaram suas marcas.
Locais que merecem uma visita não só por sua beleza, mas por guardarem lembranças de um tempo que já passou. Assim começa a reportagem da revista Bons Fluídos, da editora Abril, deste mês, que mostra o município com uma atmosfera interiorana e convidativa.
Giuseppe e Anita
Nascida em Laguna, já na adolescência Ana Maria de Jesus Ribeiro (1821-49) demonstrava amor pela liberdade desafiando os costumes da época: andava a cavalo e tomava banhos de mar.
O combatente italiano Giuseppe Garibaldi (1807-82) estava exilado em Santa Catarina depois de colher os louros da Revolução Farroupilha.
Vivia em uma escuna ancorada na baía de Laguna quando viu pela luneta uma jovem. Seu caminhar altivo e os cabelos negros soltos ao vento o cativaram de imediato: “Mi ha colpito come um fulmine (“me atingiu como um raio”, teria dito). Ana, que ele chamava pelo diminutivo em italiano, Anita, tinha na época 18 anos; ele, 32.
O namoro começou enquanto ela fazia exercícios de tiro instruída por ele. Os dois atuaram em batalhas no Uruguai. Anita carregou canhões, foi enfermeira, aprendeu a falar italiano, espanhol e francês.
Instruía-se e fortalecia seus ideais de igualdade e justiça social. Garibaldi vibrava ao vê-la lutar: “De pé sobre a popa, no cruzamento dos tiros, surgia ereta, calma e altaneira como uma estátua de Palas”.
Em Laguna, cenário desse amor sem fronteiras, três séculos de história aguardam os viajantes de todo país: os antigos casarões pintados de cores diversas, a igreja de Santo
Antonio dos Anjos e a casa, construída em 1711, onde Anita vestiu-se de noiva aos 14 anos para seu primeiro casamento, imposto por sua mãe.
Do alto do morro da Glória uma visão panorâmica justifica o nome da cidade, com suas praias, ilhotas verdes, lagoas e dunas. Ainda hoje mantém os ares de uma Veneza rural.
Lampião e Maria Bonita
Natureza selvagem, rochas, serpentes venenosas e mandacarus. A história do cangaço, universo de homens destemidos do coração da caatinga nordestina, faz pensar que nenhum outro par se casa tanto com a paisagem quanto Virgulino Ferreira da Silva (1897-1938), vulgo Lampião, e Maria Bonita (1911-38).
Conheceram- se no município de Paulo Afonso, Bahia, na humilde casa de taipa dos pais dela no sítio Malhada da Caiçara. Era uma sexta-feira. O cangaceiro chegou acompanhado do amigo Odilon Café, que lhe apresentou Maria.
Na primeira conversa ele dispara: “Você sabe bordar?” Sei. “Vou deixar uns lenços pra você bordar e volto daqui a duas semanas pra buscar”, ele prometeu. Não deu outra: pouco tempo depois eles fugiram. Em suas andanças percorreram o sertão de sete estados do Nordeste. Dançavam de ‘afofar o chão’ e, dengoso, ele criava modinhas dedicadas a Maria: “Tu me ensina a fazê renda que eu te ensino a namorá”. Quando lhe perguntavam o que deveriam dizer aos policiais em seu encalço, sorria: “Diga que passei por aqui amando e querendo bem”.
Lampião e Maria Bonita formaram o casal mais temido do sertão. Junto com seu bando, entravam nas cidades e vilarejos pedindo dinheiro e comida. Ai de quem não obedecesse.
O último ataque ocorreu em 1938, no agreste alagoano. Em julho desse mesmo ano, o grupo foi morto numa emboscada na grota do Angico, na margem sergipana do rio São Francisco. É ali que está encravada a usina de Angiquinhos, a primeira do Brasil a aproveitar o potencial hídrico de Paulo Afonso.
Ela foi idealizada em 1913 pelo empresário Delmiro Gouveia, na pequena cidade que hoje leva seu nome. Na região também ficam os sinuosos cânions do São Francisco, formados do represamento do rio na época da construção da hidrelétrica de Xingó, em 1994. A gigantesca fenda de pedras em contraste com as águas esverdeadas forma uma das vistas mais bonitas de Alagoas.
Pagu e Oswald
Conduzida pela coragem de ir na contramão e abrir caminho para um Brasil moderno, Patrícia Galvão, pseudônimo de Pagu (1910-62), foi poeta, jornalista, desenhista, escritora e militante política. Lutava contra o preconceito, as injustiças sociais e pela construção de uma cultura tipicamente nacional.
Oswald de Andrade (1890-1954), então casado com a artista Tarsila do Amaral, já era escritor famoso quando o poeta Raul Bopp lhe apresentou Pagu. Poetas, escritores e artistas costumavam se reunir em salões na praça da República e em almoços na loja Mappin, em São Paulo, onde discutiam movimentos embrionários da Semana de Arte Moderna de 1922, deflagrada no palco do Teatro Municipal.
Fascinado pela musa, Oswald rompe seu casamento para ficar com ela, na época com apenas 20 anos e grávida do seu primeiro filho, Rudá de Andrade. É o próprio Oswald quem conta em seu livro Romance da Época Anarquista: “Em 1930, a jovem amorosa, Patrícia Galvão, e o crápula forte, Oswald de Andrade, diante do túmulo (o jazigo da família do escritor), do Cemitério da Consolação assumiram o heroico compromisso. Depois se retrataram diante de uma igreja. Cumpriu-se o milagre. Agora sim o mundo pode desabar”. E começaria mesmo a desmoronar pouco tempo depois. A união não durou mais de três anos.
Frida e Diego
“O casamento da pomba com o elefante”, comparou a mãe de Frida Kahlo (1907-54) quando Diego Rivera (1886-1957), o maior nome da arte no México, se uniu a sua filha. Ele, então com 43 anos, era gordo e feio; ela, aos 22, era magrinha e tinha saúde frágil. Aos 18 anos sofrera um grave acidente que fraturou sua coluna e deixou sequelas devastadoras. Durante a convalescença, tornou-se pintora. Um ano depois do ocorrido, quando Diego pintava seu primeiro mural, Frida foi procurá- lo na Cidade do México para lhe mostrar um quadro e pedir sua opinião. “Eu pinto o que vejo, você, o que vai dentro do seu coração”, avaliou, sem compreender como tanta agonia e poesia poderiam caber em uma pintura “ao mesmo tempo dura como aço e fina como asa de borboleta”. Desse primeiro encontro nasceu um relacionamento tão apaixonado quanto turbulento, pontilhado de infidelidades, separações e reconciliações até o final da vida deles.
Ambos respiravam arte, cultura e revoluções. Essa paixão teve grandes momentos na Casa Azul, no bairro de Coyoacán, na Cidade do México, onde o casal morava e recebia amigos, como o surrealista André Breton e o revolucionário Leon Trotsky.
Hoje, o espaço foi transformado